Segunda-feira, 8 de Junho de 2009

Terreno minado

O nome Francis deixava em dúvida o sexo,
o rosto quase infantil sustentava uma expressão cansada da luta pela sobrevivência...


Estava sentado na minha mesa cativa, no bar do Xará. O movimento naquela noite chuvosa de segunda-feira era pequeno, o que permitia uma conversa mais esclarecedora com o Fino, garçom mor e filósofo.
Depois do inevitável futebol, Fino discorria sobre o trabalho e a necessidade que o ser humano tem de cumprir com suas obrigações: “Um negócio morbígeno que só essa raça tem”, dizia ele com toda a autoridade de quem conhece abissalmente o semelhante e “estuda” o dicionário, para melhor comentar suas vicissitudes intrínsecas. Assim é o Fino se lhe permitimos, em troca de uma caipirinha de lima perfeita, opinar sobre qualquer coisa. Mas ele na verdade estava curioso sobre um aspecto: “Me diga uma coisa Silva, você saiu da polícia e agora se especializou, qual um detetive de cinema, a desvendar casos peculiares. Estas vivendo de que, meu camarada?” “O negócio do dinheiro, entra como?” Emendou revelando uma preocupação verdadeira. Ajeitei-me na cadeira pronto para explicar, quando um casal entrou. Estavam molhados e careciam de atenção e álcool, duas coisas que faziam do Fino o melhor garçom de Brás de Pina.
Diria ao Fino que o caso da dona Letícia, que chamei de Conexão espanhola, uma estória um pouco mais complexa, me rendeu o suficiente para uns meses.
Passei a dar atenção a caipirinha, mas ouvi às minhas costas: “O senhor é o detetive Silva? Posso falar com o senhor?” Me virei intrigado. “Qual o seu nome?” Perguntei mais para identificar o sexo de quem perguntava. Os cabelos oxigenados molhados pela chuva, escorriam e grudavam na cabeça. Os olhos tristes tinham uma cor indefinida entre o marrom e o caramelo. O rosto quase infantil sustentava uma expressão cansada, mas ansiosa. Era de estatura mediana e se vestia com simplicidade, calça jeans e camiseta escura. A roupa molhada revelava um corpo em formação. “Francis”. Respondeu a figura, dificultando mais ainda a definição do sexo. “Sente-se aí”. Indiquei a cadeira em frente. “Quer beber alguma coisa?” “Não, agora não”. Pareceu decidida. Fino se aproximou, mas a um leve gesto meu, afastou-se. “Então, quer falar comigo...” “Estou com um problema e me indicaram o senhor. Falou que eu podia confiar”. “Quem indicou?” Estava louco para ouvir um nome. Era a segunda vez que me indicavam, assim, misteriosamente. “A pessoa pediu pra não dizer, não sei porque, mas recomendou muito. E eu não vou dizer”. “Muito bem Francis, depois a gente resolve isso. Qual o seu problema?” “O senhor pode me dar um cigarro?” “Parei”. “Bom, eu vi uma coisa, e por causa disso querem me matar”. Disse com voz trêmula e emocionada. Fiz um sinal para o Fino trazer um cigarro no varejo. “Conta a estória direito, do início”. “Eu moro e trabalho em Copacabana”, disse enquanto o Fino entregava o cigarro e uma caixa de fósforos, “faço ponto na Avenida Atlântica. Agora no verão tem muito turista, aumenta o perigo, por isso trabalhamos em grupo”. Acendeu o cigarro, tossiu, e a voz saiu mais forte, masculina. “A gente também paga segurança, diariamente. Semana passada a Michely, que é quem faz o contato mais direto com os seguranças, foi levada e voltou com o rosto inchado e a notícia de que queriam aumento por causa do verão. Passou de dez reais para vinte, de cada uma de nós. Resolvemos resistir e lutar. Michely levou nossa reivindicação: passar para doze reais. Isso já faz três dias e ela não apareceu mais. Ontem à noite, já na madrugada eu vi um carro levando uma colega. Eram dois que conheço e eles viram que eu vi. Me perseguiram e um deles me disse que eu seria a próxima se a gente não pagasse o que eles queriam”. “Já foi à polícia?” Perguntei. “Eles são a polícia”. Nos olhamos por um tempo e os pensamentos coincidiam: “Fodeu!” “Tentei falar com um delegado da área que disseram que é legal, um tal de Espinosa, mas não consegui e meu tempo é curto. O senhor pode nos ajudar?” Esvaziei o copo e mostrei para o Fino. “Esse negócio é complicado, envolve a corporação, política, poder...” Balancei a cabeça e minha vontade era não me envolver no assunto. “Falei com umas amigas que vinha procura-lo e estamos dispostas a pagar. Cada uma vai dar quinze reais”. Fiz uma conta rápida de cabeça, dava pra mais de mil reais. “Grana não é o problema...” “Então o senhor vai nos ajudar?” A frase era mais afirmativa do que interrogativa e carregada de esperança. O Fino deixou o copo cheio na mesa e me olhou com sua cara típica de “é roubada”.




Na noite seguinte eu estava em Copacabana, sem a menor idéia do que fazer, mas convicto de que entrara num terreno minado, onde o ser humano se igualava aos irracionais, agindo por instinto, seguindo a lei da selva. O predador e a presa, cumprindo seus papéis na cadeia alimentar. Um mundo de exploração, na sua forma mais baixa, cruel e muito perigoso. A primeira coisa a fazer era ficar de olho e seguir à risca a combinação com Francis.
Não demorou muito e Francis apareceu. Só reconheci porque me fez o sinal. Estava loiríssima, os cabelos esteticamente arrepiados, alta sobre a plataforma que arrastava com os pés, usava um micro vestido lilás cintilante. Reuniu-se ao grupo por um tempo, falou com todas e se separaram, sem se distanciar muito.
Logo passou um carro da polícia, bem devagar. O policial da direita olhava “as moças” e dizia alguma coisa, depois soube que falava o nome de cada uma. Ao passarem pela Francis deram uma parada. O policial disse alguma coisa. Ela recuou instintivamente e fez menção de correr. O carro avançou e dobrou na esquina. Francis andou rápido até meu posto de observação. “Ele me perguntou se dei o recado para as outras e quis saber do dinheiro”. Ela disse quase chorando. “Você perguntou da Michely?” “Não tive coragem”. “O que vai acontecer?” Perguntei. “Mais tarde algum deles passa, à paisana, e pega uma de nós, era sempre a Michely, agora não sei”. “Acho que será você”. Ao ouvir isso Francis entrou em pânico, tive que acalmá-la. “Como você vai saber que é o cara?” Perguntei prevendo a dificuldade. “Só depois que estiver dentro do carro. A Michely nunca sabia quem vinha pegar o dinheiro”. Estávamos diante de um grande impasse, se já era um terreno minado, agora era um terreno minado no escuro.
O gol da polícia voltou. Num impulso e sem nada programado, corri até o carro fazendo sinais. O policial me examinou com seu raio-x e esperou. “Seu guarda fui roubado por uma dessas aí”. Ele me olhou com jeito debochado. “Roubado como? Aqui na rua?” Falou ele debruçado na janela do carro. A idéia me surgiu de repente. “Foi uns dias atrás, saí com uma tal de Michely e ela me roubou. Tenho vindo procurar por ela e as outras dizem que ela sumiu”. “Meu amigo, ta na chuva é pra se molhar”. Aconselhou. “É, mas eu quero dar queixa”. Ficou impaciente. “Cara ce vai pagar esse mico, vai na delegacia dizer que foi roubado por um travesti? Deixa disso, irmão”. “Num dá seu guarda, ela levou mais do que dinheiro. Preciso achar essa filha da puta. Por um acaso tenho uma foto dela”. Chutei pra gol sem saber a direção e bateu na trave. “Como você tem uma foto?” “Ué, tenho, tirei no celular”. “Quedê a foto?” “Ta ali com uma outra, eu estava mostrando quando vi vocês. Vou pegar”. Voltei correndo pra onde estava a Francis, que parecia um fantasma de tão branca. Ela, claro, não tinha foto nenhuma. Disse pra ela ir andando e voltei até a polícia. “A puta rasgou a foto e eu não trouxe o celular”. O policial trocou um olhar com o outro e disse com ironia: “Cara, vai na delegacia e conta sua estória, quem sabe”. Saíram com o carro e vi quando fez um sinal de positivo e depois esticou o indicador, simulando um revólver, para a Francis, que não entendia nada. Mas naquela noite ninguém apareceu pra buscar o dinheiro.
Na noite seguinte, já com a foto da Michely, circulei pelo calçadão. Falei com umas pessoas, vendedores ambulantes, flanelinhas, e fiz circular a notícia de que a “moça” estava sendo procurada. Já no fim da noite um garoto com uma caixa de engraxate se aproximou. Veio com o papo de engraxar e respondi com um sonoro “drogas to fora”. Então ele abriu o bico: “O senhor ta procurando a Michely?” “Por que você quer saber?” “Porque eu sei qual é. To ligado”. “Qual é rapá, sabe o que?” “Pô, me dá cem conto aí, tenho que pagar uma parada sinistra. Eu sei das coisa, cara”.“Ih, qualé malandro, que cem conto? Deu banho agora paga”. Falei enquanto me afastava. Ele foi atrás. “Cara eu sei o que ta rolando. Sou amigo das meninas. Me da uma força aí”. Diz logo então e aí vou ver se vale cem”. “A Michely ta de armação com os caras. Sei onde ela ta”. “Onde?” Perguntei enfiando a mão no bolso. Ele deu o serviço. Tirei duas notas e dei a ele, que saiu correndo. Era hora de fazer uma visita.
Eram três e meia da madrugada. O apartamento na rua Prado Júnior ficava no sétimo andar. Convenci o porteiro a me deixar entrar sem avisar e a me dizer quem estava no local. Bati de leve na porta e fui prontamente atendido. Apesar do susto, Michely não teve como fechar a porta. Correu para a janela, acho que pensou em gritar, mas teve bom senso. Conversamos por um bom tempo e ela tentou até me seduzir, mas eu pensava na Mariluce. Pelas contas pagas do condomínio, o ap estava em nome do policial. Numa rápida vistoria, encontrei alguns quilos da boa e do preto. Algumas armas e uma agenda muito interessante. Michely quis saber quem a entregou. “Alguém mais ferrado do que você”.
Liguei dali mesmo para a polícia, um delegado conhecido. Aguardei até a chegada deles ao prédio, numa conversa muito proveitosa com Michely.
Francis me procurou de novo no bar do Xará. Não aceitei o dinheiro, apenas os cem do engraxate. Antes que ela saísse falei: “Não se iluda, isso nunca vai ter fim”. Ela balançou a cabeça e sorriu conformada.

Ilustração – Murilo Martins

Sábado, 11 de Abril de 2009

OS SEGREDOS DO FINO

Segredos do passado.
Uma investigação e
duas revelações


- O sujeito já nasce mal intencionado e não adianta querer modificar, que não tem jeito. Lá na escola, há muito tempo, um professor dizia com todas as verdades na voz: “o homem é um produto do meio”. E é mesmo. Já sai da barriga da mãe prontinho. É só esperar uns dez anos que o cara já mostra ao que veio. Agora, que é triste é. Veja esse menino, esse num tem nem dez anos e aí, perdido, sem futuro. Ah, meu Deus...
O Fino falava com um jeito compungido, como nunca vi, olhando o garoto sendo levado pela polícia. O menino tentou ficar com a carteira do dono da loja de loteria, mas o sujeito não concordou.

- Sabe Silva, - voltou a falar o melhor garçom de Brás de Pina, encostado na porta do bar, secando interminavelmente as mãos no seu pano de prato preso à calça, - nunca falei isso pra ninguém. Tenho uma filha, que hoje tem vinte anos. A mãe me deixou logo que ela nasceu e sumiu no mundo. Nunca tive notícias e vou te dizer uma coisa: tem vinte anos que penso nela todos os dias. - Fez uma longa pausa e escondeu a emoção debaixo do pano que passou pelo rosto. - Quando vejo uma cena dessas aí, me dói na alma e penso na menina. Dava tudo e mais um pouco pra saber dela. Pelo menos saber.
Olhou pra mim e não tive dúvidas no que estava pensando: “Você não é detetive? Acha a garota”. Sustentei o olhar do Fino e comentei: “É foda”.
Bebi o resto da caipirinha e sai dando um tapinha nas costas do amigo. Andei um pouco pelas ruas quentes do bairro, fazendo o tempo passar para ir encontrar Mariluce que àquela hora, meio dia, provavelmente estava acordando, depois da noite passada na quadra da escola de samba. Mas eu já estava contaminado pela dor do Fino. Sem querer já planejava a busca pela filha dele. Ia precisar de informações, mas não queria colocar minhoca na cabeça do cara. Vai que não encontro, ou que aconteceu alguma coisa do tipo: se mandou com um gringo, sofreu um acidente, sei lá. É foda!
Depois de passar na casa da Mariluce para dar um aperto nela, ainda na cama, voltei até o bar e falei com o Xará. Ele sabia de algumas coisas, poucas coisas:
- Sei que o Fino é aí do interior do estado, acho que é de São Fidélis. A mulher se mandou com o Delegado, num dava nem pra ir atrás.
Sabia também o ano e o primeiro nome da mulher. Pedi pra não dizer nada ao Fino e voltei para a casa da minha rainha. Pensava lá com o meu cérebro: “encontrar uma moça de vinte anos e dizer pra ela, oi sou seu pai, é um negócio muito esquisito. E se ela estiver muito bem de vida, casada? Ou não, se estiver mal, envolvida com algum bandido. Tudo era possível”. Conclusão da conversa comigo mesmo: ia achar a moça e ver qual era a situação, depois decidia se contava ou não aos dois.
Não foi difícil pesquisar quem era o delegado na cidade naquele ano. Descobri também que foi transferido para outra cidade e que se aposentou há cinco anos e morava no subúrbio. Até aí tudo bem. Fácil. Liguei pro cara:
- Dr. Celso, quem fala é o Silva. Sou amigo da família da sua esposa, dona Selma. Queria notícias dela.

Os aposentados em geral, e aqueles aposentados que durante muito tempo mandavam nos outros, em particular, são sujeitos carentes. Passaram a vida toda dando ordens e sendo bajulados, e agora o que mais querem é mostrar que estão vivos. Contou que Selma trabalhava como secretária de um médico na zona sul e só voltava à noite. Sobre a filha dele, ou do Fino, contou que estava se preparando para a faculdade de medicina, e estava viajando no feriado. Disse que eu podia visitá-los quando quisesse, passando o endereço. Perguntou qual o parentesco.
- Sou na verdade primo da cunhada do irmão mais novo da Selma.
Enquanto ele fazia contas, agradeci e me despedi. Então o Fino, o nosso querido garçom tinha uma filha que ia ser médica. Minha vontade era correr e contar a ele e brindar com a sua famosa caipirinha de lima. Mas a tal da prudência segurou a minha onda.
Fui passear no endereço. Como de praxe procurei um bar, o mais próximo e como não tinha lima, bebi uma de limão mesmo. Ruim, mas fazer o que? Seu Gaspar além de dono do boteco era presidente de honra da associação de moradores, com muito orgulho. Conhecia todo mundo.
- Parente da Selma, então é dos nossos. O Celso saiu daqui agorinha.
- Estive com ele. Estou esperando a Selma voltar...
- Sabe amigo. Qual a sua graça, mesmo?
- Silva, Zé Silva.
- Fui amigo do avô do Celso, do pai e claro do delegado. O nosso eterno delegado. Vou lhe contar, - aproximou botando a barrigona no balcão e buscando aquela intimidade necessária aos segredos que já nasceram públicos, - graças ao Celso esse é o lugar mais tranqüilo pra viver. Bandido aqui não se cria. Vacilou, ó!
Fez o gesto do dedo indicativo passando pela garganta e riu com gosto. Recado dado e recebido.

- E a filha deles?, quase médica... – Exagerei mudando de assunto.
- A menina vai longe, puxou o pai, sabe fazer as coisas.
Mais tarde identifiquei a Selma com a ajuda do seu Gaspar. Fiz a abordagem antes que ela entrasse em casa.
- Aí meu Deus, o Olindo. Depois de tantos anos. – Pareceu chocada, e eu também ao descobrir o verdadeiro nome do Fino.
- Ele só quer notícias da filha, saber se está bem. – Argumentei para acalmá-la.
- Moço, eu vou lhe contar toda a verdade, mas não diz pro Olindo que me encontrou não, pelo amor de Deus. Para o bem dele.
Naquele dia, mais tarde, mal consegui conversar com o Fino. Olhava pra ele e pensava: “É melhor que ele pense na filha que nunca mais viu e imagine coisas, do que saber que na verdade nunca foi o pai daquele bebê”.
Os segredos do Fino vão morrer comigo.
E espero que vocês sejam discretos.

Ilustrações: Murilo Martins

Isso é tudo pessoal...

Quarta-feira, 25 de Março de 2009

Por onde anda Jurema ?



Não sei a quantas noites não durmo um sono justo. Minha grande preocupação é com a Mariluce. Antes só me dava aborrecimento próximo ao carnaval, com sua mania de ser rainha de bateria. Mas agora, depois que foi convidada a fazer parte do corpo de dançarinas em um programa de televisão, acabou meu sossego de vez. Não que desconfie dela, de jeito nenhum, é que em todos os lugares aonde vou aqui em Brás de Pina, seja no bar do Xará, ou na barbearia do Vicente, tem sempre um engraçadinho para dizer: “gostosa aquela Mariluce, hein?”. É um desassossego.
Sempre a acompanho até o estúdio e fico do lado de fora esperando acabar o programa. Nunca estou só, pelo menos outros vinte caras como eu, disfarçam por lá.
Um dia desses um dos caras aproximou e puxou assunto:
“Você já foi da polícia, né?”. Falou sem me olhar nos olhos, um mau começo. Como não falei nada, ele emendou, “minha namorada é colega da sua aí no programa, ela me disse que a sua namorada, a Mariluce, é esse o nome, né? Falou pra ela que agora você é detetive particular”. Carregou nas duas últimas palavras.
Não tem nem um mês que a Mari está no programa e todo mundo já sabe da nossa vida.
“E por que você quer saber?”. Perguntei procurando intimidá-lo.
Um tanto sem jeito e protegendo a informação, ficou na ponta dos pés para falar bem perto da minha orelha esquerda:
“Você investiga mulher, quero dizer, descobre se ela está, assim, como dizer...”
“Traindo, corneando, sendo infiel?” Tentei ajudá-lo.
“É. É isso”. Ele disse aliviado, como uma virgem no confessionário, e emendou, “é caro?”
Se tem uma coisa que nunca vou fazer na vida é seguir mulher insatisfeita. Pra mim mulher só trai quando o cara desconsidera, ou então é do ramo.
Uma semana depois não vi o sujeito ali na turma do relento. Mais tarde a Mariluce, a caminho de casa, me segredou:
“Hoje uma colega não apareceu, a Jurema. Uma outra disse que pode ter acontecido alguma coisa com ela. O namorado não queria que ela trabalhasse fora”.
Ela me olhou com aquela ruga de preocupação entre as sobrancelhas, e eu já sabia o que ia acontecer.
Com o endereço da Jurema na mão fui até Jacarepaguá. Ninguém em casa. Na padaria, onde disseram que o namorado trabalhava, fiquei sabendo que o cara não aparecia há uma semana, sem nem avisar.
Fui até a casa dele, no lugar conhecido como Rio das Pedras. A mãe, dona Josefa, uma pernambucana de noventa anos, que carrega o mundo nas costas, me disse que o Dinaldo não é muito de dormir em casa, e falou com o megafone que levava na garganta: “Desde que se enrabichou por uma rapariga aí que ele quase não vem aqui. E o senhor quer o que com ele?”.
Era hora do boteco. Achei um próximo à casa da Jurema. A caipirinha era boa e quem fazia tudo era a Terezinha.

“De onde você conhece a Jurema?”. A pergunta dela fazia sentido.
Tomei um bom gole da caipirinha e fui sincero: “Ela trabalha com a minha namorada”.
Terezinha ficou me olhando com uma expressão inquiridora, mas alguma coisa por trás dos olhos semicerrados me arrepiou.
“Ela também viajou, ou tá querendo ir?” A voz saiu mais baixa, confidencial.
“Pra onde?” Ela recuou diante da pergunta. Olhou discretamente para um sujeito sentado no fundo do bar. Imediatamente ele fez um sinal pedindo mais uma cerveja. Ela afastou-se com um sorriso.
Voltei no dia seguinte. A configuração no bar era a mesma. Notei que o sujeito no fundo do bar, continuava lá. Ficou em alerta com a minha entrada.
“Qual o seu nome?”. Terezinha perguntou ao servir a caipirinha.
“Silva, José Silva”. Deixei passar um tempo e a chamei de volta. “Sabe o que é? Minha namorada tem interesse na viagem, ela queria saber se a Jurema foi mesmo”. Terezinha largou outro rápido olhar para o sujeito, no fundo. Aproximou-se e disse com um sorriso de dentes amarelos: “Eu não sei de nada, conversa ali com o Aderbal. É o cara”.
Aderbal parecia fazer parte da mesa, uma estátua erigida ao bebedor contumaz. Mexia o corpanzil o mínimo possível, economizando energia para o copo.
“A gente oferece um futuro pra essas meninas. Primeiro mundo, salário em euro, vida boa, realização dos sonhos. É uma oportunidade”. Finalizou fechando o olho direito.
“O que ela tem que fazer pra realizar esse sonho?”. Procurei um sorriso pra ganhar a confiança dele.
“Manda ela me procurar. É só ligar pra esse celular e a gente marca um encontro. Vamos fazer umas fotos, os caras lá são exigentes, e se ela for aprovada, tudo certo. A viagem é por nossa conta”.
Três dias depois, foi o tempo que levei pra convencê-la, Mariluce marcou o encontro num apartamento em Copacabana. A recomendação era que fosse sozinha e levasse os documentos. Fizemos uma combinação e fiquei aguardando em um boteco nas proximidades. O celular dela, o tempo todo ligado, transmitia para o meu, os acontecimentos. Durante uma hora ouvi as baboseiras, as propostas, as promessas, até que uma terceira voz apareceu e chamou para as fotos. Mariluce perguntou se podia chamar o namorado, que era muito ciumento. A reação foi dura: “se você quer fazer sucesso e ganhar dinheiro, esqueça esse Zé Mané, que só vai te atrasar”. Ela seguiu o roteiro. “Mas a Jurema me disse que o Dinaldo acompanhou tudo”. “Olha aqui garota, o tal do Dinaldo se meteu e já era. Foi! O negócio aqui é pegar ou largar. Se quiser faz as fotos pega os mil reais de adiantamento e em uma semana se manda pra Europa. Se não...”.
Além de tudo o “se não” era uma ameaça explícita. Chegara a hora de agir. Em três minutos toquei a campainha. Ouvi no celular ainda ligado: “Despacha logo, se for problema põe pra dentro e resolve”.
Antes que a porta fosse aberta totalmente, enfiei o pé e chutei o saco do grandão já atordoado com o nariz quebrado. Tirei a arma dele. O que dava as ordens apareceu na porta e tentou correr, mas acertei a bala atrás do joelho direito. O fotógrafo era um ser frágil e não resistiu.
Depois de acalmar a Mariluce, chamei a polícia e recomendei o bar da Terezinha.
Fui ao enterro do Dinaldo, devia isso a ele. O corpo foi achado num matagal. Dona Josefa e eu éramos os únicos no cemitério. Ela me olhou o tempo todo, desconfiada. Saiu primeiro do que eu, antes mesmo de taparem o buraco.
Mariluce queria saber da Jurema. Mas isso é uma outra estória.
Ilustração: Murilo Martins

Isso é tudo pessoal...

Sexta-feira, 6 de Março de 2009

PARALELAS



Aconteceu de manhã. Bem cedo. Naquela hora que ainda é noite, mas já é manhã do outro dia, quando mais uma vez as intenções, os desejos, as expectativas, se encontram no contra fluxo e nem se falam ou acenam, ou se olham. São “gentes” diferentes: sol e lua, dia e noite. Foi assim que aconteceu: Ela descia a rua, sapatos de salto alto na mão. Pés no chão, cabeça nas nuvens. A Outra, subia a rua. Tudo no chão, o peso nos ombros. Cruzaram-se e nem se perceberam. Não precisava já sabiam quem era uma e quem era a outra, sem nem se conhecer e jamais iriam se entender. Uma levava uma vida, a Outra levava outra vida. Distantes, inversas, opostas. Mas o som no silêncio da hora, pequenininho, quase nada, ligou os sentidos. Quem mais poderia usar o berloque no tornozelo? Um passo a frente e o olhar para a direita, olhar para a direita. Para baixo. A calça tapando e a minissaia expondo. O som idêntico. Coincidência! Do que seria feito o dela? Correntinha de prata, guizo idem, não pode ser igual a minha, pensou a Outra. Feita com desejo, para marcar, diferenciar, anunciar, pensou Ela. O olhar subiu. Olhos nos olhos. Diferentes em tudo: cabelo, cor, altura, jeito, atitude, ah, a atitude. Ganhou do marido enrustido pensou Ela. Recebeu em pagamento, pensou a Outra. Ela sorriu, não, riu. Riu do pensamento imaginando a Outra recebendo o bibelô do marido e perguntando: igual o sininho da vaca? E a Outra apertou os olhos, imaginando quando Ela recebeu: é pra minha cascavel! O guizo do veneno. Veneno, venenosa.
Um último olhar. Ela descia, a Outra subia. Duas certezas, uma sentença: coitada dela.

iSSO É TUDO PESSOAL...

Quinta-feira, 19 de Fevereiro de 2009

Tudo por um reino

A luta pelo trono e
a esperteza do súdito.


Naquele dia a Mariluce estava indócil. Nem bem acabamos de transar, ela se levantou apontando o relógio, nervosa, agitada, falando pelos cotovelos: “Já são três e meia da tarde, preciso me arrumar. Hoje não posso chegar atrasada no ensaio. Se você vai comigo, vai tomar banho e se vestir...” “Ou,ou,ou,ou. Mari, o ensaio é as onze da noite. Se ainda sei contar faltam mais de seis horas. Ta maluca? Volta pra cama, olha como eu fiquei. Vamos fazer de novo...”
Ela parou de se vestir, ficou com a calcinha pelo meio das coxas. Olhou pra mim de um jeito desconhecido. Parecia transtornada. Cheguei a sentar na cama pra ver melhor o rostinho lindo e sensual, transformado em um rostinho belicoso, lindo e sensual. “O que foi? Que cara é essa?” Perguntei cheio de inocência. “Às vezes você não me ouve”. Falou apontando o dedo. Estava sinceramente magoada. “Falei pra você que o diretor da escola arranjou uma bandida, dizem que tá de caso, e a mulherzinha ficou me ameaçando e dizendo que a bateria é dela. Onde é que está sua cabeça, Silva?” Voltou a se vestir. “Você sabe, gretinha”, de vez em quando eu a chamo assim, e ela gosta, naquele momento não, nem me olhou, “minha cabeça só fica em você. Dentro ou fora, não tem pra ninguém”.
Mas ela não estava para brincadeiras. Continuou se arrumando, como se estivesse muito atrasada. Resmungava sem parar, coisas que eu não entendia. Não dava pra arriscar precisava falar sério. “Tudo bem, você pode repetir o que você disse. A gente tava transando, Mari. Pôxa”. “Não, a gente ainda não estava transando. Mas vou repetir”. Parou no pé da cama, cruzou os braços sob os seios mais perfeitos do mundo e falou: “Até domingo estava tudo certo, eu era a rainha da bateria. Mas aí o diretor apareceu com uma baranga, toda, toda, e ela passou o ensaio inteiro disputando o espaço comigo, assim como quem não quer nada, se engraçando pro mestre da bateria. E o pior foi depois, se agarrou com o diretor na minha frente e assim que deu falou rindo no meu ouvido: “se manda perua seu show acabou”. “Acabou uma pinóia, agora é que vai começar”.
Ficou claro que a guerra estava declarada, e eu sabia exatamente até onde aquilo podia chegar. O melhor a fazer era não contrariar a moça. Fiquei ali fingindo que me arrumava e assistindo ao espetáculo da tarde: Mariluce, num veste desveste, para ir a luta.
Seis e meia da tarde saímos da casa dela. Insisti em passar no bar do Xará e tomar uma pelo menos, já que a noite tinha indicação bélica. Fino preparou uma especial de lima pra mim e uma de maracujá pra Mariluce, a meu pedido.
Ela mantinha-se quieta, ensimesmada, vez por outra apertava os olhos e respirava pesado, com o ódio faiscando pra todos os lados. Eu entendia a gravidade da situação e a importância que o reinado à frente da bateria tinha pra ela. Estava preocupado com o que podia acontecer no ensaio. Por outro lado não tinha a menor idéia de como a Mari reagiria naquela circunstância. Era melhor me preparar para o pior.
Consegui segura-la até as dez horas no bar, mas minha integridade física estava ficando ameaçada. Caminhamos um pouco pelas ruas desertas de Brás de Pina e partimos para a quadra.
A quadra já estava cheia e animada com o típico espírito carnavalesco, um som tocando os sambas dos anos anteriores, a bateria já esquentando os coros, as mulheres em plena exibição e azaração, os homens pavoneando pra lá e pra cá, com os copos na mão.
Mariluce não perdeu tempo e foi falar com o Mestre de bateria e com a rapaziada. A todo tempo olhava para o camarote e fazia um sinal de não com a cabeça pra mim.
Aproveitei que ela foi ao banheiro e me aproximei do Mestre. “E aí? Belo samba”. Falei amistoso. “É esse ano a gente leva, ta tudo em cima”. Fiquei ali sem saber se abordava o assunto ou não, afinal nunca havia me metido nas coisas da Mari. Mas precisava pelo menos saber as chances da menina. “Escuta, a nossa rainha tá bem?” “Quem?” Ele perguntou demonstrando surpresa. “Cara”, me olhou sondando cumplicidade, “a gente quer a Mari, você sabe, mas o homi apareceu aí com uma amiguinha e ta forçando uma barra. Diz que hoje fica decidido”. Aproveitei que tinha umas cento e oitenta pessoas querendo falar com ele e me afastei. O caso era sério.
Dali vi Mariluce andando de um lado para o outro, procurando alguém. Atravessei o salão e me aproximei. Ela passou a mão no meu peito, assim como se afaga um cachorrinho e continuou sua busca. De repente ficou imobilizada. Dei a volta e olhei-a de frente. O olhar felino e os dentes à mostra prenunciavam o ataque. Tentei desvia-la, mas estava determinada. Olhei na direção do seu olhar e vi a rival. Uma loura grande, oxigenada, exagerada e a coisa mais simpática que se via por ali. Conhecia muito bem o tipo. As delegacias eram as salas de estar delas. Falava com todos, distribuía beijos, acenava, ou seja, estava em campanha. O tal diretor da escola que a levava como um súdito, era mais baixo do que ela, barrigudinho e endinheirado. Os trejeitos mostravam.
“Mari, se você atacar a moça vai perder a razão”. Disse decidido, tentando me interpor em seu caminho. “Eu não estou nem aí pra razão, essa bandida vai ficar sem os dentes”.
Ao mesmo tempo em que a atitude da Mari me assustava, eu via que ela estava com a tal da razão, pelo menos até ali. Segurei-a pelos ombros e fiz cara de bravo. Por um instante ela acusou o golpe. “Se você fizer o que pretende, vai dançar. Deixa comigo”. Falei firme e fui resolver.
Não tinha a menor idéia do que fazer, mas era bom arranjar uma boa e rápida. Caminhei decidido afastando as pessoas e me aproximei do casal que se dirigia à bateria. A loura e o baixinho falavam com todos e entrei numa espécie de fila desorganizada. Olhei para trás e vi Mari parada no mesmo lugar, em expectativa. Chegou minha vez na fila. Cumprimentei o baixinho com um sorriso e um tapinha no ombro e abracei a loura. “Como é que cê veio parar aqui, mulher?” Falei no ouvido dela. Tentou se afastar para me olhar, ficou confusa. “Você é muito esperta. O cara aí sabe quem é você? Aliás, quem é você mesmo?” Aí me afastei rindo. A loura murchou, azedou. Olhava com insistência pra mim, louca pra lembrar quem era. Eu piscava pra ela fazendo questão que o baixinho visse. A coisa desandou rápido. O Baixinho pegou a loura pela mão e a arrastou dali, em direção a uma espécie de salinha vip, muito bem guardada.
Tempos depois o baixinho reapareceu com amigos e seguranças, mas sem a loura, que não foi mais vista. Me olhava com insistência, mas sem nenhuma acusação formal.
Por enquanto a Mari é a Rainha. Não se sabe até quando, ou até “que loura”.
Mariluce quis saber tudo. “Disse pra loura que a bateria já tinha rainha, que ela podia ir reinar em outro lugar”. Mari riu e aquela foi a noite mais cansativa da minha vida. E uma das melhores.

Sexta-feira, 6 de Fevereiro de 2009

Ah, a Mariluce...

Zé Silva, em uma jornada muito particular.

Mariluce, moça cheia de atributos, sem segredos e muito à vontade no jogo amoroso.


Era um sábado chuvoso, frio, cinzento, perfeito para um crime. Mariluce estava naqueles dias e já brigara comigo a manhã inteira. Achei melhor sair antes que cumprisse a promessa de fazer greve. A greve dela é mortal, total, apocalíptica, simplesmente passa a usar camisetas com mangas ou meias mangas, me privando impiedosamente de suas axilas perfeitas e cheias de personalidade, o espetáculo recôndito de sua anatomia, onde primeiro meus olhos pousaram, para depois percorrer, já encantados, sua geografia fascinante.
Corri até o bar do Xará, deserto àquela hora, ainda cedo para o almoço de sábado e mais cedo ainda para se estar acordado. Fino me recebeu com cara de sono e a preguiça que a chuva provoca. Como sempre faz, trouxe uma caipirinha de lima, e como não havia fregueses sentou-se apoiando o queixo na mão, cotovelo na mesa, olhar nostálgico.
“Sabe Silva, às vezes sinto uma saudade danada da minha primeira mulher. A gente não se entendia, mas ela era uma coisa de deixar qualquer um maluco. Brava que só ela, mas também um furacão, chegava a me queimar”. Ele descrevia a mulher, floreando, filosofando, viajando, gerundiando tudo o que tinha direito.
O papo me deixou maluco. A voz do Fino ficou longe, espacial. Comecei a lembrar dos momentos mais felizes da minha vida:
Ainda estava na polícia e em meio à investigação do desaparecimento de um gringo, visto pela última vez na quadra de uma escola de samba. Fomos, Dimitre e eu, a um ensaio em pleno sábado, meses antes do carnaval. Na quadra lotada acontecia a escolha final do samba-enredo, o momento mais importante para a comunidade, antes do desfile na Sapucaí. Fizemos nosso trabalho conversando com uns, interrogando outros, mas não foi possível ficarmos alheios ao que acontecia. Quando o samba que seria o escolhido mais tarde estava sendo apresentado, meu parceiro gritou no meu ouvido: “olha só aquela morena sambando ali”. Olhei e pensei: “Como você existe e eu não sabia?” Se há harmonia nota dez, ali se apresentava em forma de mulher.
Dei por encerrada a investigação e improvisei um jeito de me aproximar da moça. Em lugares como aqueles é preciso ser cuidadoso, as mulheres em geral estão acompanhadas e normalmente os acompanhantes não estão dispostos a estabelecer nenhum tipo de negociação. Observei-a por algum tempo e percebi que não estava indiferente a mim. Arrisquei um sorriso, o mais sincero que eu levei e imediatamente entendi que o terreiro estava desocupado. Ela sorriu e trocou olhares com a amiga que sambava ao seu lado. Nada mais revelador e indicativo.
Cheguei junto, mas como era impossível conversar ao lado da bateria, grudamos nossos olhares e evoluímos rapidamente. Uma torrente de sensualidade nos levou noite à dentro, ao ritmo do surdo e nos movimentos do corpo da moça chamada Mariluce. Assim que o samba foi anunciado como o vencedor, corremos para a nossa urgência física, que era o que realmente interessava. Passada a necessidade de troca mais biológica, nos entenderíamos intelectualmente, sem pressa, nenhuma cobrança, apenas dando chance ao prazer. E assim foi pelo final de semana e depois continuou, melhorando e subindo o grau de intensidade até não existir mais nenhuma possibilidade de distância entre nós. Só posso afirmar que aquela teoria da física foi derrubada, dois corpos ocupam sim um mesmo espaço ao mesmo tempo.
E assim tem sido, desde então, a minha vida com Mariluce, moça cheia de atributos, sem segredos e muito à vontade no que se refere ao jogo do amor.
Na comemoração de uma semana juntos, levei-a a um restaurante chic na zona sul, um que fica no primeiro andar de um prédio antigo, subindo para o bairro de Santa Teresa.
Nossa entrada foi um estrondoso sucesso. Senti o gosto, mais uma vez, de ser o coadjuvante mais invejado da noite.
O garçom nos acomodou numa mesa central, de propósito, não se pode privar quem quer que seja daquela visão. Trocamos algumas palavras, carícias e bebericamos um vinho, uma concessão minha. A caipirinha de lima teria que esperar.
Finalmente escolhemos os pratos. Brindamos com o vinho, voltamos à troca de carinhos contidos, mas Mariluce não impunha censura em suas arremetidas sensuais.

Passou a me acariciar por baixo da mesa, com o pé. Aliás, um pezinho maravilhoso. Deixou-me num estado de excitação total. Em seguida aproximou seu rosto do meu e disse baixinho: “Tira, quero acariciar”. “Aqui não, Mari. Pelo amor de Deus”. Mas falei sem nenhuma convicção. A nossa volta, ninguém parecia notar. Os casais comiam e conversavam tranqüilos. Os garçons movimentavam-se compenetrados equilibrando as bandejas. “A toalha é comprida. Tira”. Ela ordenou com a carinha mais inocente do mundo. Não resisti e imediatamente o mundo exterior desapareceu. Ela tem uma técnica com os pés, que é uma coisa alucinante. Fechei os olhos e entreguei o que restava de bom senso e compostura àquela “penipulação”. Um pé apertava, o outro acariciava, com os dedos beliscava a pele, depois com a sola de um dos pés, fazia o movimento pra cima e pra baixo, apertando o suficiente. Movimentos lentos que ia aumentando, enquanto pressionava mais. Perdi o controle e só abri os olhos ao ouvir ao meu lado a voz do “maître”, que dizia: “Senhor, está tudo bem?” Olhei para a Mariluce que se divertia, mantendo um ar angelical. Nas mesas vizinhas, as pessoas olhavam, algumas divertidas, outras sisudas. Imediatamente recuperei o controle e respondi que estava tudo bem. Lancei um olhar mortal para a Mari. Dei um jeito de guardar e puxar o fecho.
“Já escolhemos”. Disse ao “maître”, sem a menor idéia do que havia escolhido.
Mariluce agiu rápido e fez o pedido, acalmando o homem, que estava a ponto de sugerir que nos retirássemos.
Assim que ele se afastou, Mari me perguntou, com seu jeito brejeiro:
“Quer terminar o que começamos?”
Não pude deixar de beijá-la, o que provocou um novo alvoroço no restaurante. Fomos atendidos com presteza e caras feias.
Comemos o nosso maravilhoso “steak tartar”, bebemos o vinho e de sobremesa uma deliciosa mousse de chocolate.
“Ela estava maravilhosa”. Fino concluía sua estória. Concordei com ele: “Sem dúvida Fino, ela é maravilhosa”.

Ilustração: Murilo Martins
Revisão : Nancy Soares

Sexta-feira, 16 de Janeiro de 2009

Mataram o Lourenço

Uma morte macabra.
Sonhos de meninos,
e a descoberta de uma máfia cruel!


“Mataram o Lourenço!” A voz da velha fofoqueira na portaria me acordou. Eram duas e vinte e dois da tarde como mostrava o celular. “E eu com isso?” Quase gritei enquanto tentava controlar o zumbido no ouvido e os choques elétricos dentro da cabeça. Todo dia um monte de Lourenços, Joões, Manés, Maiquels, morrem e ninguém grita no meio da tarde. “Quem é o porra desse Lourenço?” Me fiz a pergunta levantando da cama sem motivo aparente, apenas puto.

A conversa tomava corpo bem na frente da minha janela. Podia ouvir a voz do seu Geraldo, o português que passava os dias sentado na portaria observando quem entra e quem sai, vestido com sua camiseta regata branca e deslocando de um lado para o outro, a dentadura solta na boca mole. Ele dizia (ler com sotaque lusitano): “Mas o que fez o rapaz? Um mulato tão fino, aparentemente um trabalhador”. Uma voz desconhecida de homem comentou: “Num sei não, toda vez que ele entregava pão lá em casa, me parecia meio doidão. Acho que era avião”. O comentário acirrou a discussão e muita gente opinava ao mesmo tempo.


Então o Lourenço era o Tuiúca, o garoto da padaria, que fica bem em frente ao bar do Xará, aqui mesmo em Brás de Pina. Garoto bom, preto que só ele, moleque brincalhão, cheio de vida e energia, descolado. Duvido que fosse aviãozinho do tráfico. De repente, por essas e por outras, o assassinato do Lourenço, se é esse realmente o nome do Tuiúca, passou a me interessar.

Liguei para a Mariluce e disse que não iria ao ensaio da escola de samba, tinha trabalho a fazer. Ela entendeu rápido demais, atenção! Esperei a turma da fofoca deixar a portaria e sai para ir ao bar do Xará. Não consegui, é claro, escapar do seu Geraldo. “Já soube que mataram o pirralho da padaria? Mandaram foi muita bala pracimadele”.

No bar o assunto era o mesmo, entrecortado por outros mais mórbidos ainda, como o dia a dia da política. O Xará me chamou no balcão e me levou até o fundo. Parecia muito impressionado com o que ia me dizer. Enquanto passava pela janelinha da cozinha, encomendou a caipirinha de lima e me disse com o canto da boca: “É por conta...”, debruçou-se no balcão e buscou a confidência: “Estão dizendo que o garoto levou uns tiros, mas não foi isso não. O Tião, aquele militar do batalhão aí, viu o corpo. Foi achado no terreno baldio ali perto do campinho. O garoto ta inteirinho, perfeito, nem parece que ta morto. Mas, oh, tem uma cicatriz desse tamanho no meio da barriga. Do peito até perto aqui do pirú. O pessoal fala em sacrifício, coisa de trabalho pesado”.

Pra mim tinha outro nome e merecia uma visita ao IML.

“O trabalho foi bem feito, a incisão é perfeita. Veja aqui, desse jeito todos os órgãos podem ser retirados sem problemas. E a costura foi de profissional, nem mamãe cerzia tão bem”. O doutor afastou-se e me chamou para ver outra gaveta. “Vê a menina? Igual, o mesmo cirurgião, eu diria. Chegou anteontem”. “O que diz a polícia?” Perguntei. “Polícia? Pra esses aí? Tão nem aí. Ninguém reclama. Mês passado foram três, três”, mostrou nos dedos. “Mesma coisa, chegam aí, ninguém reclama, depois jogam num buraco e tudo certo”.

Fui até a padaria. Ninguém sabia da família do Tuiúca ou Lourenço. Entregava as encomendas pelas gorjetas, aparecia de manhã e sumia à tarde.


“De uns dias pra cá, ele saia correndo e encontrava com um cara ali. Perguntei e ele disse que jogavam bola no campinho”. Contou Solange enquanto fazia um troco. Fui até o campinho e fiquei sabendo de um sujeito que aparece vez por outra, prometendo levar os garotos para times da Europa. “O Lourenço falava nisso?” “Quem?” “O Tuiúca?” “Tava cheio de marra, disse que o cara ia levar ele”. “Vocês viram o cara?” “Só uma vez, de longe. Ficou vendo a pelada e depois chamou o Tuiúca pra conversar e saiu com ele poraí”. “Ele foi pro estrangeiro?” Perguntou o mais velho com os olhos derramando esperança. “Foi”. Respondi e sai mais perdido do que bola em pelada. Mas o bom investigador precisa contar com a sorte. Um dos garotos veio correndo atrás de mim. “Moço, o senhor também leva a gente pra jogar no estrangeiro?” “Depende”. “O homem que levou o Tuiúca ia me levar, mas no dia o Tuiúca foi comigo e ele escolheu ele. Sem nem ver o neguinho jogar. Sou muito melhor do que ele”. “E por que não levou você?” “Sei não. Ele começou a perguntar um monte de coisa e quando eu falei que morava com meus pais, ele escolheu o Tuiúca, que falou que já tava um tempão na rua”. “Então deve ser isso. Ele só leva menino de rua. Deve ser um cara muito caridoso”. O garoto concordou e acho até que compreendeu. Pedi a ele que ficasse de olho no meu rival e qualquer coisa me avisasse no bar.

Dias mais tarde, um calor filho da mãe, ninguém se lembrava mais da morte do Lourenço. Cheguei no bar e o Xará gritou lá de dentro: “Silva, teve um garoto te procurando aí”. Quase corri até o campinho. “O senhor pediu pra avisar, o cara combinou com o Careca, aquele ali, oh! Esse joga muita bola”. Passei a tarde toda de tocaia num canto de rua vendo a pelada. O garoto tinha razão, o Careca é um craque. Já de tardinha o sujeito apareceu lá do outro lado. De longe fez sinal e o Careca, depois de bater na mão de cada um dos companheiros, correu para encontrar um futuro melhor. Eu ia precisar de muito sangue frio, não podia me precipitar, tinha que ir ao limite.


Segui os dois mantendo distância, mas logo entraram num carro, que aguardava no beco. Segui num táxi. Depois de muito dobra pra cá, vira pra lá, o carro entrou em uma clínica, pelo menos era o que dizia a placa na casa, no bairro da Penha. Pulei do carro e toquei a campainha. Uma moça me atendeu. “Meu médico recomendou que eu viesse aqui fazer um exame”. “Estamos em obras, senhor”. “Brincadeira gata, sou da empreiteira e vim acompanhar as obras”. Forcei a entrada. Lívida a moça pediu que eu aguardasse. Sumiu por uma porta e eu por outra. Ouvi vozes atrás de uma das paredes. Coloquei a arma por baixo da camisa na frente e entrei. Eram dois homens rodeando uma cama de exames e o Careca deitado nela. “Sou empresário do garoto e vim acertar o contrato”. Apresentei-me enquanto mostrava com o que assinaria, caso algum deles se mexesse. A surpresa jogava a meu favor. Forçaram a porta e eu mesmo disse, entra. Não dava pra controlar três, por isso atirei primeiro pra perguntar depois. O brucutu tinha um 38 enorme, mas nunca mais ia usá-lo. Ouvi quando a moça saiu correndo, sem se despedir. Os outros dois estavam em pânico. Parabenizei aquele que parecia ser o cirurgião: “Você será uma costureira muito querida na prisão”.

Assim que a polícia chegou, levei o Careca até o bar do Xará. Enquanto ela traçava um mocotó, expliquei tudo: “Os caras iam mandar você para um time da Turquia, come tudo aí e treina direito que a gente arranja um teste no Real Madrid."

Ilustrações: Murilo Martins